Eu escolheria a pílula azul

⚠ Aviso de pensamentos descontinuados a cada parágrafo.

Eu costumava dizer que a ignorância é uma dádiva, continuo acreditando nisso. A ignorância lhe poupa de certas dores. Saber certas verdades não lhe acrescenta em nada, pelo contrário, lhe deixa mais solitário e distante.

Nisso eu tô pensando em como a gente não sabe de um milhão de coisas e como isso não faz falta na nossa vida. Como também tem coisas que, mesmo a gente sabendo sobre, não tem nada que podemos fazer a respeito. E isso é frustrante. Por isso era melhor que eu não saiba, minha alegria é que o cérebro esquece das coisas rápido e me poupa de estar consciente de certas informações.

Veja só os animais, dizem que eles são ignorantes e é isso que os diferencia dos humanos. Mesmo assim, vivem em harmonia e não são os causadores de tantas desgraças no mundo. Vivem um dia de cada vez, no ritmo da natureza. Enquanto o ser humano, sem aceitar sua ignorância, tornam-se mais do que ignorantes: burros.

Sustentando-se unicamente num aspecto biológico que não entendem, não respeitam e não sabem usar: o cérebro (ao que atribuem a razão). Eu vejo um interesse enorme em saber como usar ele completamente, pra responder as perguntas mais intrigantes da existência, descobrir a verdade de todas as verdades, a vida além da vida ou além da terra e, nisso, dão o passo maior que a perna.

Do nada eu me peguei pensando em Matrix. Em como eu não gostaria de “saber a verdade” da forma como é apresentada no filme, por mais tentadora. Eu escolheria acordar na minha cama no dia seguinte e continuar minha vida do jeito que tá. Porque qualquer outro caminho diferente desse, ia me trazer consequências igualmente desagradáveis, como as já existentes na minha vida normal.

Penso que tomar a pílula vermelha não me faria mais do que uma pessoa em meio a algumas outras incapazes de mudar a realidade ou resolver algo com o conhecimento adquirido. Que é a revolução proposta no filme. Eu acredito que a revolução acontece a passos largos, lentos, diários e invisíveis. Não é extraordinário ou espetacular. Nada de proveitoso vem de rompantes. Pra mim, a pílula vermelha é um rompante.

Tá aí uma série de histórias que o protagonista acha sua vida muito ruim e tem a chance de mudar ela como mágica, quando chega no final, ele volta pra onde começou. A solução dos problemas dele tava na vida normal dele, só continuar a nadar, pelo menos não ia se afundar mais ainda em problemas. De repente 30, efeito borboleta, a caixa, click, um lugar ao sol, alice através do espelho, a biblioteca da meia noite...

No fim das contas, saber a verdade não impediria nada de acontecer tal como acontece ou aconteceu. Mesmo acreditando que o ser humano só aprende e muda o caminho do mau costume depois de experiências traumáticas, não vale a pena viver essa jornada do herói quando se tem tantos exemplos pra ficar de aprendizado.

Eu sou do time que não quer voltar no passado, nem viajar pro futuro, nem saber o dia que vai morrer, nem mudar ou evitar nada do que já aconteceu. Não porque eu acredite que o caminho que tomei me fez a pessoa maravilhosa que sou hoje, eu só não quero ter que vivenciar tudo de novo, nem por um dia. Nem quero antecipar nada, já basta minha ansiedade. Morrendo de véspera todo dia. Não quero voltar a quando eu era criança porque era um tempo bom e sem preocupações. Não quero ser visitada por nenhum fantasma de natal, espero que todos reencarnem em paz e me deixem em paz, também.

Claro que isso sou eu e minha visão pessimista de mundo, pode chamar de alienada também k. A analogia com as pílulas de Matrix e a caverna de Platão, sob uma ótica progressista ou otimista parece muito inspiradora e revolucionária, motiva você a mudar o mundo e buscar a verdade num mundo injusto. É uma sensação boa de sentir. Mal sabia que a verdade é o que é, não é nem justa nem boa. Longe disso.

Conclusão: preciso ver o último Matrix, pra ver qual foi o desfecho da saga.

⏳⏳⏳

To aqui levantando uma bandeira a favor da ignorância e militando contra a busca do conhecimento? Nop. Nem sei o que eu to fazendo.

14.04.22 - atualização
Quando eu falo sobre escolher continuar vivendo minha própria vida. Eu não pensei em continuar numa vida cega para as injustiças do mundo, vivendo na zona de conforto. Mas de continuar no desconforto que já é a sua vida (nessa realidade que temos) e promover uma revolução no seu ritmo, ao invés de uma quebra abrupta de realidade/ilusão (que seria a proposta da pílula vermelha). Se parar pra pensar, todos os dias a gente tem quebras abruptas na nossa realidade, a pandemia, desastres naturais, mortes e por aí vai. Claro que não por escolha, e talvez sim, se levar em consideração o conceito de efeito borboleta, a não existência de coincidências e como todas as coisas se afetam entre si. Mas não vou me estender nessa parte, senão já era meus neurônios. 

Parece contraditório, pois eu comecei o texto falando de ignorância ser uma benção e ficou parecendo que a escolha da pílula azul seria essa permanência na ignorância cega e subordinada. Tal como o filme Matrix propõe e critica. Mas vamos deixar de lado um pouco o filme, porque eu entendo que a escolha da pílula vermelha e tudo o que ela acarreta é uma metáfora para o despertar que acontece quando aprendemos algo novo, parece que o mundo se abriu na sua frente de uma forma que você não poderá nunca mais voltar ao estado inicial de ignorância sobre aquele assunto (pra essas situações eu gosto de dizer que abriu um terceiro olho, ai quando é algo muito foda demais, eu digo que abriram vários olhos).

Mas eu tava pensando sobre lutas estarem acontecendo todos os dias na vida de todo mundo, tal como ela é, cada um do seu jeito e como podem. Na ignorância que nos cabe. Continua sendo um texto confuso, contraditório e sem propósito que talvez tenham mais atualizações com o passar do tempo.

4 comentários:

  1. Gostei bastante do seu ponto de vista. Realmente, a vida é algo lento que precisa ser degustado para um melhor aproveitamento.
    Eu não gostei do desfecho do filme, mas com certeza, inicialmente é um bom filme.

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    1. A comparação com matrix foi inicialmente uma metáfora sem grandes intenções, mas agora eu to aqui pensativa sobre. Eu assisti ontem o filme... entendo o sentimento. Acho que essa reflexão vai me render mais do que eu esperava.

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  2. Eu também não sei o que estou fazendo

    Matrix é um filme que aborda muitos assuntos e podemos ter diversas interpretações sobre ele, achei seu ponto de vista interessante, gostei de algumas partes e discordo em outras...

    A ignorância é uma dádiva pois ela te entrega uma vida simples e uma forma sucinta de encarar os problemas que aparecem, além de nos evitar de muita ansiedade e sofrimento desnecessário. A frase de Sócrates "só sei que nada sei" mostra que quanto mais descobrimos, mais compreendemos que não sabemos nada sobre nossas vidas, o mundo e o universo que vivemos. Acho que isso instiga curiosidade na maioria das pessoas de querer saber mais, de alguma forma "saciar" essa fome por conhecimento. Neste momento, descobrimos coisas horríveis que nos causam o sentimento de frustação que você comentou, de saber que algo horrível irá acontecer ou está acontecendo e que não podemos fazer nada para mudar.

    Entretanto, não acho que não exista realmente nada que não possamos fazer, pelo menos não sozinhos. Acredito que a única forma de mudar alguma injustiça ou algo de ruim que está acontecendo é com trabalho em equipe, no sentido de unir forças e ir a luta, quase literalmente. A solução dos problemas dificilmente vem através de debates e conversas amigáveis, apenas revoluções e lutas são capazes de botar um fim a problemas complexos (ou quase). Mas para conseguir que isto aconteça, uma pequena ação individual não vale de nada, o que realmente importa é a união de diversas ações individuais, várias pessoas indo atrás de um mesmo objetivo. Essa pode ser uma das partes mais difíceis também, pois entra no momento da escolha das pílulas.

    A maioria das pessoas não quer sofrer, não quer ter que lutar por um objetivo, muitos escolhem viver uma vida pacata e com exploração, por exemplo, ao invés de sofrer para ter algo mais justo. Não acho que seja culpa dessas pessoas, pois lutar é cansativo e para garantir que as coisas estejam boas, é preciso uma luta cansativa e contínua. Afinal, é através do conforto que deixamos de exigir coisas melhores, que as coisas sejam executas de forma correta e que problemas deixem de acontecer. Quando estamos confortáveis e alheios ao que acontece ao nosso redor, damos brechas para que os causadores de problemas prevaleçam e façam com que voltemos ao problema inicial... Há uma frase em "O conto da Aia" sobre como o deixamos que este tipo de cenário se torne realidade, e é como você comentou que as mudanças ocorrem, não são de um momento para o outro, são sempre lentos, diários e quase invisíveis. Só notamos a diferença quando olhamos para o passado e comparamos com o nosso presente (exemplificando a forma que você falou sobre voltar no tempo, para um momento em que não haviam preocupações ao invés do sofrimento do presente...)

    De qualquer forma, penso que a forma como encaramos estes tipos de acontecimentos é que dizem o quanto sofremos: se somo apáticos, alheios, indiferentes, e assim por diante. Quanto menos sentimos a dor do outro, mais fácil fica para vivermos nossas vidas em paz, pois não precisamos nos preocupar com problemas que não são nossos ou qualquer coisa do tipo...

    Acho que talvez eu tenha fugido um pouco do tema, mas é legal pensar sobre como pequenas ações e as escolhas que fazemos podem impactar a nossa vida e a vida de outras pessoas, enfim, não sei o que to fazendo :v

    Bye bye!
    - Aurora

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    1. Uuuuu teu comentário acabou de me da uma perspectiva de algo que eu deveria acrescentar ao texto. Sobre a escolha de continuar vivendo sua própria vida. Eu não pensei em continuar na vida de exploração e pacata, cega para as injustiças do mundo. Mas de continuar sua revolução no seu ritmo, ao invés de uma quebra abrupta de realidade/ilusão.

      Claro que a crítica do filme é justamente essa que vc fez, de as pessoas preferirem continuar na zona de conforto da vida normal a reconhecer o sistema de exploração que ela faz parte. Uma crítica ás pessoas que preferem ser controladas a controlar o próprio destino e fazer suas próprias escolhas.

      Mas na minha cabeça (já que eu não coloquei no texto), quando eu falei sobre continuar na sua vida, eu não pensei em conforto. Pensei sobre lutas estarem acontecendo todos os dias na vida de todo mundo, cada um do seu jeito e como podem.

      O que vc falou do Conto de Aia, é exatamente por isso que não tenho interesse em viagem no tempo. Sem interessem em voltar pra uma época que tinha seus problemas e limitações que hoje ja foram superados, apesar dos muitos retrocessos tbm. Sob a ilusão de que eram tempos melhores e sem preocupação.

      Na verdade, era só um tempo que vc estava alheio as preocupações, mas elas existiam. O que é ate contraditório da minha parte pq eu to falando justamente sobre as benção da ignorância, as benções de se estar alheio as coisas.

      Não sei se estou sendo clara, espero que dê de entender. Como eu disse, foram pensamentos desorganizado colocados em parágrafos. Que bom que serviu pra temos essa conversa. Gostei muito do seu comentário. Gostei das suas discordâncias também.

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