Escrito em 10.10.22
Ao contrário do que todo mundo pensa e quer, eu olho pra minha avó e penso como eu não quero chegar na idade dela (nem perto). Faz eu pensar que ninguém deveria viver tanto ou ter a ambição de viver muitos anos. Pelo menos não no Brasil, não nessa realidade. Talvez em realidade nenhuma.
O que me faz lembrar o texto que eu li da mezzosoprano inglesa, Alice Coote, sobre ela e os cuidados com a mãe dela numa velhice doente. Me fez lembrar o mesmo sentimento que eu tenho quanto a ter filhos. Você está desamparado com a vida de um ser humano nas suas mãos. É desesperador.
[...]There is no way to describe what it's like being a carer 24/7 emotionally and mentally (never mind physically) for years, with no real help because society actually provides no real suport.
If you meet me... Please know that I am never fully there with you any more. Doing palliative and ongoing care for so many years makes me very fragile, but angry too, also intolerant of people not giving their all when I needthem to... Sometimes I get more than a little impatient with the world. I see life now from a very different perspective. It's based in the grim but sober reality of age, of death, and that this is where most os us are headed.
[...]
We and our families are at the mercy of society that ignores this epidemic of a failure to care for our older selves happening in plain sight. [fonte]
Felizmente minha avó não é doente, nem demanda os mesmos cuidados que a mãe da Alice. Na verdade eu tenho a melhor vó em sua melhor condição, na medida do possível pra 93 anos de vida. E felizmente todo mundo que ela encontra trata ela super bem. Do que eu to reclamando, afinal?
Acho que todo mundo acha lindo e inspirador, ver o ser humano fazendo as coisas sozinho e se desenvolvendo, principalmente numa condição em que não se espera muito dele (pois já é muito velho ou ainda é muito novo: aprendendo a falar e andar quando criança ou continuar andando e falando lucidamente depois de velho). A mesma mentalidade é expressa com quem é PCD ou pobre (quando passa em medicina, "mesmo com tanta dificuldade" k)
Ninguém sonha o perrengue que é, a exaustão que causa e vc não ter nenhum amparo. Nenhum lugar é adaptado, você limita os ambientes que pode ir por causa disso. É muito humilhante e desencorajador. Você fica dependente, das pessoas e do meio, porque não pode mais fazer tudo sozinho como esteve fazendo ao longo dos anos. Não pode comer o que gosta. Toda dor e doença é tratada como esperada pra idade. Toda grosseria e falta de tato na fala é tratada como aceitável por causa da idade. A cada queda é como morrer e nascer de novo, não num sentido bom. Claro que existem coisas boas, mas eu não to nesse clima agora, talvez num outro texto.
Quando falam que idoso é como criança, é verdade mesmo, em tudo de ruim que essa frase implica.
Talvez eu seja a chata, mas eu odeio essa afirmação (e mesmo assim, cá estou eu fazendo uma comparação entre os dois estágios da vida ao longo de todo o texto). Eu odeio quão idiota ela é. Não é só ingenuidade, é quase capacitista k. É implicar que idoso volta a ser aquilo sem vez, sem voz, sem direito e sem mobilidade, dependente de um adulto. Um ser que "não sabe o que ta falando". E tudo mais que qualifica uma criança nessa realidade em que vivemos, disfarçado de algo positivo.
Não gosto como as pessoas tratam crianças nem gosto como associam os idosos á elas. Não gosto como negligenciam eles com frases condescendentes, nem gosto como permitem maus comportamentos e maus costumes validados na idade. Talvez por isso eu não me veja mais na docência, nem como mãe.
Toda vez que alguém vem me elogiar por eu cuidar da minha vó, eu quero socar a cara da pessoa.
Não sei o que essa pessoa espera de mim ou de si mesma ao falar isso. Não sei o que ela quer com isso. Não é por mal, eu entendo daonde vem essa fala, mas não sei pra onde ela vai. Eu ouço, sorrio educadamente e sigo a vida.
Sigo pensando em como não tem mérito algum o que eu faço. Nao deveria ter. Mas é uma merda que o mínimo esforço de tratar idoso dignamente seja considerado algo excepcional.
É uma merda que idoso seja considerado um estorvo, politicamente, socialmente, economicamente. É uma merda o amparo oferecido ao idoso se resumir a leis e se bastar nisso. É uma merda que nunca sobre ninguém da família pra cuidar do idoso. É uma merda não poder contar com nenhum serviço de cuidado com idoso sem correr risco de maus tratos ou extorsão. É uma merda o sentimento que o idoso tem de gratidão por quem cuida dele, com se fosse um favor e eles ficassem em eterna dívida. É uma merda o sentimento que o idoso tem de dar trabalho e tentar por tudo no mundo não dar trabalho, não dizendo onde dói, não falando que se machucou, não dizendo que precisa de ajuda. É uma merda tratarem idoso como coitado e incapaz.
E tudo isso fica explicito em como funciona o sistema de saúde, a aposentadoria, o preconceito de pessoas mais novas, e culturalmente não se dá um pingo de respaldo e respeito ao velho e desgastado, as rugas, as imperfeições, a lentidão, a fraqueza, ao cabelo branco. O idoso é tudo o que a humanidade explicitamente mais abomina. Igual homens abominam mulheres.
Eu não cuido bem da vó, lembrando, eu não sou uma boa pessoa (até porque, o referencial de pessoa boa é um bolsonarista. Então to bem com minha condição).
Repetir isso pra mim mesma não é depreciativo, na verdade tira uma carga pesada de mim. Tira a cobrança de esforço da minha parte, para além do que eu posso. Acho que foi essa a forma que eu encontrei pra me acalmar. Porque na minha cabeça a vó merece muito mais, mais do que posso dar.
Eu reconheço que estar com a minha avó, ter sido criada na presença dela e conviver com ela hoje em dia, é muito bom e me deu super poderes. Que são super, porque infelizmente só sabe quem vive, só percebe quem vive, só sente quem vive. Mas er... Eu não gosto de me sentir como se fosse a única pessoa capaz de perceber, entender, cuidar, lidar. É como a Alice disse, eu fico frágil, zangada e intolerante com as pessoas que não me ajudam como deveriam. E eu sou uma reclamona, o que deixa tudo pior.
Eu reconheço que estar com a minha avó, ter sido criada na presença dela e conviver com ela hoje em dia, é muito bom e me deu super poderes. Que são super, porque infelizmente só sabe quem vive, só percebe quem vive, só sente quem vive. Mas er... Eu não gosto de me sentir como se fosse a única pessoa capaz de perceber, entender, cuidar, lidar. É como a Alice disse, eu fico frágil, zangada e intolerante com as pessoas que não me ajudam como deveriam. E eu sou uma reclamona, o que deixa tudo pior.
Ainda não achei uma frase de reafirmação que refute essa última fala, que nesse caso é depreciativa e invalida meus incômodos. "É só mais um drama".
Talvez eu tenha perdido o filtro do que escrever num caderno e o que postar num blog. Também não ando escrevendo no caderno há muitos meses. Tem coisas aqui que não podem ser faladas, simplesmente não podem. É considerado inaceitável de falar ou de pensar. Errado. Antiético. Não é só pessimista como degradante. Mas na minha cabeça é tudo muito claro, real e válido, e eu não quero ter que polir minhas palavras sobre isso.
Eu queria muito ir pra terapia, ou o que quer que a terapia represente pra mim nesse momento. Eu quero muito uma solução facil, só que eu odeio esse estado de mente de soluções milagrosas. Eu não quero mudança e tbm não quero o jeito que tá. Não quero as implicações dos meus quereres, nem sei como fazer pra lidar com o que ta acontecendo e me incomodando agora. Que nem é tão problemático assim, nem é tão cansativo, não é tão limitador, não é nada. É que quando se está nesse estado de mente, juntando meu filtro pessimista de ver as coisas, fica tudo horrível. E cá estou minimizando meus sentimentos mais uma vez.

As vezes eu sinto que o sofrimento é uma coisa que não tem tamanho e que não é muito fácil de entender a não ser que a gente sofra. Te li e fiquei pensando em como uma coisa tão importante e essencial como o cuidado as vezes é visto como uma questão de personalidade e não como um problema coletivo e em como é bizarro que tenhamos uma sociedade de proporções tão gigantescas e ao mesmo tempo tão individualizante e tão incapaz de lidar com essas questões e comenda o que muitas vezes é um sacrifício e um sofrimento enorme com a alcunha de pessoa boa e fica tudo por isso mesmo.
ResponderExcluirO jeito que a gente vive me parece sempre meio merda e encontrar alternativas à isso as vezes parece quase impossível. Espero que seu sofrimento diminua ou que você consiga lidar melhor com ele eventualmente. Se cuida. É nóis.
As vezes eu queria que os comentários daqui tivesse uma opção de reagir, porque eu não tenho muito o que responder nem quero deixar em branco como se não tivesse sido lido e o comentário não fosse bem vindo. Mas também não tem muito o que eu falar mais sobre, apenas recebo suas palavras e agradeço por você ter passar por aqui. Valeu!
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