Mais uma entrevista com o RM pra minha coleção. Já tem duas listadas nas bookmarks, mas essa vai ficar aqui com os melhores trechos, comentados por mim. A entrevista saiu uma dia depois de eu passar 3 horas falando sobre o mesmo tema, só que referente ao Japão com meu padrasto, que morou 20 anos lá e pode me dar uma panorama do que ele viveu por lá.
Muito bom você chegar na Espanha e dar uma entrevista dessa pra um dos principais jornais do país e repercutir mundialmente, justamente com a parte em que fala sobre a visão rasa de países colonizadores para com a Coreia, como se eles tivessem dado a sorte de ser um país famoso, rico e amado do nada. É muito lindo ver o ocidental, sendo chamado de ocidental e colocado no seu lugar de ocidental. E o colonizador no lugar de colonizador.
Na entrevista, ele comenta algo que serve como uma chamada de atenção pra nós, cabecinhas colonizadas, reconhecer um aspecto que nós temos em comum: a necessidade de ralar bem mais, pra conseguir o mínimo. E ralar mais ainda, pra conseguir o extraordinário.
Quando ele destaca que é exatamente esse trabalho duro, quase desumano, que faz o Kpop chamar atenção e encantar. É sobre isso. É toda a indústria, que não é dependente de gravadoras e assessores caça-talento caloteiros. São empresas de formação de base, de captação, capacitação, gerenciamento de carreira e ao infinito e além. Tem exploração? Tem fraude? Tem lavagem de dinheiro? Tem assessores caloteiros? Tem. É o modus operandi do capitalismo, queridos. Bem vindos ao mercado. Como o RM fala, "embora, claro, existam sombras, tudo o que acontece muito rápido e muito intensamente tem efeitos colaterais.".
Hoje, com a carreira que ele tem, tendo se tornado uma importante figura pública e até política, o RM pode dar uma entrevista dessas e ter uma repercussão dessas, que vai ressoar com tanta gente. Tanto coreanos, como eu no Brasil e vários outros nativos de países colonizados e imigrantes, o que já contabiliza bem mais da metade da humanidade espalhada por vários países, falantes de várias línguas.
Ele ainda macetou a mídia que deturpa informações, que sempre opta por fazer matérias xenofóbicas que reforçam falácias. Depois tá cheio de gente repetindo as mesmas besteiras. Como se a indústria do kpop e o ritmo de trabalho competitivo coreano fossem as maiores mazelas sociais, causadoras dos maiores índices de suicídio do mundo. Nisso, qualquer um se sente no direito de dar opinião sobre o país alheio e se sente no poder de ditar quem ta certo e quem ta errado. Encher a boca pra falar que o país ta cheio de problemas por ser conservador demais e não ser avançado como o meu país ocidental que é um exemplo a ser seguido e alinhado com os direitos humanos, porque aqui a gente tem lei que deixa gay casar e lá não.
Parabéns por ser evoluído, Senhor Ocidental Desconstruído. A Coreia tá precisando de ajuda mermo e de pitaco, é por falta disso que ela não vai pra frente. Obrigada pela contribuição.
Eu tava conversando ontem sobre o Japão e sobre como ninguém tem o direito de falar sobre o país alheio, estando no caminho certo ou errado, cada país tem o direito de avançar nas suas questões e superar seus próprios problemas, com pessoas de lá, com os movimentos locais, com a legislação local de acordo com a cultura do lugar. Quer ajudar, mande pix. Pessoal tem mania de impor a forma, os conceitos e os motivos pelo qual asiáticos tem que lutar pra avançar. Adora chamar asiático de racista, pedófilo, homofóbico, machista, atrasado, conservador como se o ocidente não fosse o sumo e o suco disso também, MESMO EM PAISES PROGRESSISTAS COM LEGISLAÇÃO BEM ESTRUTURADA NESSAS PAUTAS, can you belive? Olhe pro seu umbigo, meu filho.
Sempre que querem falar mal do Japão, escolhem as mesmas palavras. Sempre vão falar de suicídio. Sempre vão falar de competição, esquecendo-se que a cobrança do mercado é voraz. Ser competitivo, priorizar a ordem, ser tradicional, conservador e severo é o que faz o país funcionar. O Japão especificamente. Essas aspectos, tão criticados, são responsáveis por fazer o país ser reconhecido nas coisas boas, na culinária, nas mídias, na organização, na educação, na limpeza, nas inovações tecnológicas e tudo mais. Uma coisa não ta desligada da outra. O mesmo vale para o Brasil, que é sempre criticado pelo jeitinho brasileiro, quando é isso que faz o país funcionar e ser elogiado, por ser hospitaleiro e amigável. É a malandragem que mantém esse país em pé, pro bem e pro mal, mesmo sem uma gota de sanidade mental pra se manter nem agachado. Essa é a graça e a desgraça do país. E só funciona aqui, pela história que o país tem e se desenvolveu em torno dela. Se tá certo ou errado, cabe a nós mesmos decidir e agir.
Eu lembro muito do livro Em Louvor da Sombra (por Junichiro Tanizaki), que é um ensaio japonês sobre milhões de coisas, mas principalmente sobre a ocidentalização do Japão que tirou do país o direito de desenvolver tecnologias próprias de acordo com a cultura e geografia local, em nome de uma modernização de industrialização americana imposta que atropelou o desenvolvimento do país. Eis uma das grandes merdas da globalização.
A galera tem uma mania de salvador branco, com os mesmos discursos de quem quer ajudar indígenas aqui no Brasil, como se dentro das comunidades não tivessem lideranças e movimentos próprios de emancipação e reivindicação de direitos. Como se eles próprios não fossem pensantes capazes de produzir, pesquisar ou lutar com as próprias pernas. SENDO QUE A GALERA TA LUTANDO DESDE 1500! Então, ninguém precisa falar por eles, se não eles próprios. Gente de fora senta e escuta. O mesmo vale pra quem gosta de criticar os países orientais, como se eles, mais do que ninguém, não soubessem onde estão suas falhas e não tivesse buscando superá-las, quando for conveniente pra eles. Quem é você pra falar que qualquer país é atrasado?
Ai pra completar, temos essa outra constatação, sobre a mesma questão da entrevista do RM, advinda de uma entrevista com o Wagner Moura, pra fechar o verso lá no final.
Eu sempre penso nisso e se não seria um traço cultural que vem da necessidade constante de batalhar pra ter qualquer coisa pq não existe um sistema de bem estar coletivo garantido pelo governo. A gente tem sempre que lutar muito pra fazer o que precisa e oq gosta ao mesmo tempo.
mas é uma coisa que eu reparei muito também, o brasileiro por natureza é exigido fazer o dobro de esforço na vida. nem por exigência, mas agr virou social mesmo. especialmente as pessoas q tem mais de 1 emprego pra poder viver bem ou estudam MUITO pra poder se destacar la fora
O povo fica impressionado com ilustrador br pq desenha, sabe diagramar livro, escreve, publica tudo só. Às vzs vou em evento fora e os gringo que fizeram metade doq um monte de amiga minha faz cotidianamente tão dando palestra grande..Se rolasse espaço a gente tomava tudo rs
Escrito em 13/03/23.
Links Relacionados
- RM, líder de la banda BTS: “En Corea trabajamos tan duro porque hace 70 años no había nada”, por Pratricia Gonsálvez, em El País | 12 mar. 2023
- Tradução da entrevista para português, por @93miyoongiw





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