Existe uma coisa no samba, que está para além da melodia e musicalidade. O samba não só é, como também soa como um movimento político. E é perceptível de uma forma que não é preciso saber história para notar, nem é preciso de letras explicitamente políticas para notar. Até porque o samba não é conhecido por ser politico como o rock, não canta um "Brasil, mostra a tua cara", mas nem por isso deixa de ser menos político. Essas mensagens estão presentes no samba, quando cantam sobre o cotidiano, sobre o parente que sai pra trabalhar, sobre o amigo que canta e dança no tempo livre, sobre o patrão, sobre ser negro nesse país de escravocrata... Mas o foco é no cotidiano, no dia a dia, nas pessoas e no trabalho. Eu gosto disso no samba, é próximo, é comum, é familiar...
Não sei explicar de forma acadêmica, sociológica ou qualquer forma respaldada intelectualmente falando, pois também não sou uma grande conhecedora do samba. Muito menos aprecio tanto assim o ritmo. Mas é incrível como eu me sinto muito tocada e movida, com todas as poucas músicas de samba que já ouvi. Principalmente os mais antigos, cantados por vozes femininas.
Há uns anos, eu escrevi sobre o samba em algum lugar, não lembro mais onde, mas era sobre eu ter percebido que o samba é música triste em melodia alegre e como isso é o retrato puro do Brasil ou do brasileiro. Chega a ser nostálgico. Uma tristeza melancólica e aconchegante. Porque é isso mesmo, a gente se conforta na música, na festa, na alegria. Nós somos o povo que faz festa de velório (literalmente e figurativamente). Terra do carnaval e futebol de fato, mas como resistência. Não porque somos abilolados da cabeça e gostamos puramente do pão e circo, só por sermos massa de manobra.
Odeio esse discurso raso para falar mal do próprio povo. Pois somo nós quem fazemos nosso próprio pão e circo, sem depender de migalhar de governo. A gente quem faz o governo patrocinar nosso pão e circo. E o celebramos, mesmo em meio ao caos e as provações, porque é o que nos resta. E no fim das contas, nossa alegria é o que não nos deixa afundar nesse cenário de miséria em que vivemos. Ser feliz é a nossa maior força. Assim como festejar, celebrar, cantar e dançar. Isso não deve ser minimizado por discursinho de internet, em que um fala e meio mundo repete, sem perceber que virou papagaio de um projeto político de esvaziamento cultural.
Inclusive, não por acaso, nos temos a figura do malandro e o ato de vadiar, que o carnaval se apropria e representa de forma orgulhosa, mesmo ainda sendo insultos usados pra envergonhar quem aproveita do tão criticado pão e circo. Quem aproveita do seu tempo livre com lazer de baixa qualidade, lazer do povo, lazer do mundo, lazer de pobre e assim recebe vários nomes e com eles, um juízo de valor.
Não vadeia, ClementinaFui feita pra vadiarE eu vouVou vadiar, vou vadiar, vou vadia[...]É o progresso, tia ClementinaTrouxe tanta confusãoUm litro de gasolinaPor cem gramas de feijão
Besta é quem acha que carnaval e futebol são besteira. Na verdade, quem acha isso, tá só repetindo o discurso que alguém um dia usou para minimizar esses movimentos. Eu não aceito vilanizarem nossa válvula de escape, nossa expressão artística, nossa identidade cultural como se o problema do Brasil fosse o lazer, a festa, a cultura, o carnaval, o funk, o futebol, o povo, o vulgar, o que tá embaixo. Como se o Brasil tivesse um problema só e você, caro internauta iluminado que crítica pão e circo, fosse o único a ver isso. Nós só não estamos preparados pra essa conversa, né, caro internauta. Nunca estamos.
Chamam de pão e circo, o que eu chamo de arte, cultura e lazer. Mas de que adianta chamar pelo nome, se arte na escola é só pintar pra passar o tempo, cultura e lazer só presta a do rico, branco, viajado... É um discurso que gera ódio pela própria identidade e esvazia nossas maiores riquezas. E isso tudo pra que? Pra receber validação dos que estão longe do que você aprendeu a desprezar, longe do que você está mais próximo, longe da sua origem. Isso faz a gente não ser patriota, não ser orgulhoso de si, não ter orgulho dos seus e é assim que conseguem nos enfraquecer enquanto pessoa e comunidade. Faz a gente perder a fé nas coisas. Tal como estamos atualmente, estamos sem fé. E isso está para além da religião, tem mais a ver com esperança e vontade. Falta fé quando deixamos de acreditar que é possível e, assim, deixamos de agir para que seja possível. E morremos... Vira uma epidemia de depressão social.
E eu não sou besta de escrever isso como quem romantiza a vida, porque eu sei das desgraças por trás do chamado pão e circo. Eu sei que governo nenhum patrocina nada por boa vontade, sei da corrupção por trás dum carnaval e dum futebol. Eu sei o que é usado como manobra política, nós sabemos que estamos sendo usados e quando estamos sendo usados. Todos os dias, mais um dia. O preto, o pobre, o índio, o gay, a gente sabe das coisas, a gente sabe de si. Não que isso nos blinde de sermos enganados também, mas ainda assim... As chances de sermos mais politizados e mais conscientes de si e maior do que o colega que se acha branco, ou que se acha rico, ou que se acha melhor e até que tenha mais acesso, mais estudo, mais dinheiro, essa gente não precisa ser inteligente, não precisa ser politizada, só precisa ser rica e tá de bom tamanho. Essa gente que já tem os acessos, não precisa se politizar, não precisa lutar por nada, não precisa provar nada, não precisar seguir a linha. Já os colegas que se acham, são o pinto que seguem pato e se afogam. É a classe média que vota contra si própria, porque se acha algo que não é. É o pardo, que se acha acima do racismo, por não ser preto. É o macho, que se acha acima do patriarcado, por achar que não sofre com o machismo. Quando digo que se acham, não tem a ver só com serem metidos, mas sobre acharam que são o que não são, por não saberem quem são, por negarem quem são, por terem caído na propaganda política, por se odiarem, por odiar o Brasil e odiarem ser brasileiro. Ta vendo o tamanho do buraco? A crise para além de estética e política, é de autoestima.
Agora pensa nos colega que se acham, o quanto a autoestima deles são baixa, ao ponto de negarem quem são e buscar aprovação daqueles que o desprezam, repetindo o discurso do que eles consideram venerável, do que eles consideram o modelo a se seguir e com isso reforçando entre os outros colegas esse mesmo comportamento de auto ódio. É fascinante e assustador, como eles se orgulham disso. Dito isso e com base nas descrições acima, responda: notou alguma semelhança com algum demográfico? Com algum movimento de ódio que permeia a internet atualmente? Com alguma vertente política da atualidade ou histórica? 😀
Mas eu também me acho. Enquanto brasileira, eu acho o Brasil o país mais inteligente, mais instruído politicamente e racialmente, o mais capacitado e profissionalizado, o melhor alfabetizado, o mais esforçado e trabalhador, o que tem o melhor sistema de votação, o que melhor representa nosso regime político atual, o mais mais. Somos o protagonista do mundo!
Engana-se quem acha outro país melhor que o Brasil. Em outro país você acha uma coisa ou outra melhor, segurança certamente sendo uma delas. Mas segurança pra quem? O que é segurança para uma mulher, nesse mundo de meu deus? É algo a se pensar, principalmente quando se é uma minoria nesse mundão a fora. Então, vamo baixar a bolinha quando for me falar bem de um país acima do meu. Pois sempre terei ressalvas.
Engana-se quem pensa que os países mais ricos ou mais estáveis politicamente, estão assim porque a população é mais instruída ou mais inteligente. Ou porque sabem votar melhor que nós. Estão assim porque a população sempre desfrutou de herança colonial, desfrutam de um sobrenome, nunca teve que se preocupar com perder direitos, eles sempre estiveram lá. O salário é garantido com uma carga horária de trabalho curta. O país é pequeno, não precisa de muito, quando já se tem tudo acumulado. Não é preciso nem pensar muito, quando se está confortável a vida toda. Quando não se viveu ditaduras. Quando não se viveu séculos de escravidão. Quando se tem que guerrilhar para conseguir emancipação, independência, autonomia, moradia, alimentação, educação, saúde... Se tudo pode ser pago, ainda que caro, tem-se dinheiro para tal, então nada precisa ser gratuito.
Deu pra perceber o quanto países ricos, vivem o ideal socialista? Se todo mundo tem poder aquisitivo suficiente, todo mundo consegue pagar pelos serviços necessário para um vida digna. Ao mesmo tempo em que, sendo de um país subdesenvolvido e vivendo no mesmo capitalismo, a população média capacitada do Brasil recebe 2.500 reais, mesmo desempenhando as mais diversas das profissões. Não era esse um grande medo do socialismo? Deus me livre, perder o bônus salarial que meu mérito me proporciona, pra viver num socialismo em que todo mundo recebe a mesma coisa, né? E eu nem sou a maior defensora do socialismo, mas dou boas risadas notificando as hipocrisias capitalistas.
Claro que falo isso de forma ampla e genérica, que não se aplica a qualquer minoria que seja, ou quem quer que esteja do lado mais fraco da corda. Mas não deixa de ser verdade historicamente. Até as minorias gringas são sem noção de si próprios e são racistas com o Brasil, do tanto que o pensamento colonial e o comodismo do colonialismo permeia a mente dessa galera, que nasceu e cresceu no privilégio.
Fica aqui o convite para pensar nas coisas que odiamos sobre o Brasil e o que nos fez odiar isso, o que nos fez acreditar no que falam de ruim do Brasil. E refletir se não é um mal do capitalismo que rege esse mundo e não um mal do país. As vezes, a forma como somos, é o que nos resta. Essa frase se aplica a nível país e a nível pessoal. Às vezes, eu sou assim, poque foi o que me restou. Eu reajo assim, porque foi o jeito que encontrei de me expressar, de triunfar, de conseguir viver. E nisso entra as coisas ditas "ruins", a preguiça, a malandragem, a vadiagem...
Pensemos nisso, não como um conformismo, mas com respeito e gentileza. Reconhecendo que somos uma consequência e agindo, a partir disso, para mudar as causas. Sem esquecer de ter fé na mudança. A fé nos dá forças para agir, para mudar, para se mexer, para dançar e cantar.
O samba é um ritmo alegre pra cantar tristezas. E eu acho isso bem brasileiro. Não tem tempo ruim, sempre rindo por costume à desgraça. Não só por sermos felizes genuinamente. Será se eu tô romantizando o Brasil agora mesmo? [Fonte: De onde vem o orgulho de ser brasileiro?]




Eu amei que o post virou a melhor militância possível sobre a nossa identidade. Amo escutar um sambinha, me faz sentir em casa mesmo longe! E eu sempre reflito muito sobre isso especialmente agora após quase 10 anos vivendo como imigrante vejo o ABISMO cultural e social que existe entre a sociedade europeia e sulamericana. E isso bate bem com o que o samba traz: o cotidiano, o sofrimento transformado em riso, o IMPROVISO. Esse é o maior atributo que a gente tem em relação a outros povos (e posso dizer pq olha, anos trabalhando com pessoas que travavam quando um problema mínimo aparecia sendo que eram coisas que eu sempre contornei do nosso “jeitinho” rs). Além de tudo: é idiota demais comparar qualidade de vida de países desenvolvidos (lê-se: colonizadores), afinal a estabilidade financeira e segurança vem justamente do fato de terem explorado riquezas por gerações FORA do território deles. Enfim: até quero comentar isso num post onde vou falar sobre minha imigração, são muitas camadas que só a gente e o samba pode descascar. 💕🇧🇷
ResponderExcluirBjs e parabéns pelo post!
Perfeitamente descrito! Nem sou muito de samba, mas deu vontade de ouvir mais...
ResponderExcluirImediatamente eu lembrei da música “do jeito que a vida quer” que tu colocou no final, mas eu queria acrescentar mais uma:
ResponderExcluir“Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
Um bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste, não”
(Samba da bênção, vários intérpretes)
Eu amo como o samba me remete a identidade e a tantas coisas mesmo eu nunca tendo pisado o pé no Rio de Janeiro… Essa leva de músicas que falavam sobre o cotidiano com todas as suas alegrias e tristezas. Eu sinto que muito dessa conexão de nós do resto do Brasil com o samba vinha através dos meios tradicionais, rádio e tv, e que agora tá se perdendo, e sendo substituída por sertanejo, funk, trap.. por um lado é bom que a internet de visibilidade a várias manifestações mas por outro, as mais impulsionadas são esvaziadas e só servem pra repetir discurso neoliberal ou coisa pior. E assim seguimos como sempre, a arte tentando resistir ao capitalismo. Mas ela já existia antes dele e a única esperança é achar que vai continuar existindo depois também