Mês passado teve um festival japonês de cinema* online gratuito que durou do dia 14 a 27 de fevereiro, mas eu só consegui ver três míseros e maravilhosos filmes.
🔼acessar a sinopse e trailer dos filmes clicando em cada poster
Todos os filmes são de 2021, uma escolha inconsciente que me agradou muito, assim eu pude ver um pouco do cinema contemporâneo japonês, que as vezes é muito difícil de acessar se não forem parar num Oscar ou num festival conhecido.
O ensaio começa aqui [não confundir com uma resenha]
O primeiro que eu assisti foi It’s a Summer Film!, que acabou dando o tom na minha percepção
sobre os seguintes. Esse filme é uma linda declaração de amor ao cinema. Um filme sobre a produção de filme num cenário escolar, com
direito a rivalidades e paixões adolescentes. Tudo o que há de bom. Queria que fosse suficiente para
descrever esse filme somente dizer que ele é genial, mas na verdade ele é
simples e é nisso que mora a genialidade.
No filme em questão, a protagonista descobre que não existem
mais filmes no futuro, porque as pessoas não têm mais tempo para ouvir/ver
sobre a vida de outras pessoas, elas estão ocupadas com a própria vida. Pra convencer desse enredo, não foi preciso mostrar nenhuma cena elaborada de sci-fi, o único recurso usado foram as falas dos personagens e um pequeno holograma, que também servia como uma máquina do tempo. Penso que se fosse outro tipo de produção,
especificamente americana, não iam perder a oportunidade de transformar o filme
numa aventura por entre dimensões com muita computação gráfica desnecessária.
Mas não foi o caso aqui e foi isso que me agradou muito, a simplicidade.
Esse foi o filme que mais conversou comigo no momento, porque refletiu fortemente o sentimento que é ter a arte como algo que te manter em pé. Um livro, um filme, uma música como algo que preenche seus olhos e coração, que te inspira minimamente no meio do mundo desabando.
A frustração
da protagonista, ao descobrir sobre o futuro, faz com que ela não desista de
produzir filmes mesmo que ninguém assista e isso acaba inspirando as outras
pessoas a não desistir também. Pode parecer que estou fazendo uma romantização
da realidade que é você produzir filme sem recurso, sem apoio e sem
telespectador, mas não é isso. Volta. Meu
foco aqui é sobre o glipse de joy que a arte desperta (aqui eu to falando de
cinema mas pode se aplicar a todas as manifestações da arte).
Um detalhe do enredo é o subtexto de que o desaparecimento dos
filmes não é algo do futuro, não está num futuro tecnológico de hologramas e
máquinas do tempo, está no futuro de hoje que é o amanhã, que foi o ontem. Tá na
rapidez e no consumo, e no crescente descaso para com a produção de arte, seja
de governo, de empresas, de instituições, seja cultural, enfim o capitalismo, manas. Volta
denovo. Senão eu começo a fazer uma crítica social foda...
A mágica de criar e conectar mundos
“Filmes conectam o presente com o passado através da tela grande". É uma fala da protagonista quando
questionada porque ela gosta de fazer filmes. O gênero que ela gosta é
especificamente filme de samurai, o que remonta uma época do cinema preto e
branco, de enredo épico. Algo que, já no tempo em que o filme se passa, não é
tão apreciado ou consumido, tal como o destino dos filmes no “futuro”.
Essa fala conversa com algo que eu sempre tive em mente sobre livros. Eles são
como uma máquina do tempo. Você tem acesso as palavras de uma pessoa que nem
viva está, sobre a vida de uma pessoa que não existe no mundo real, você tem a
oportunidade de acessar outro universo através daquelas palavras, sem precisar
de nenhuma tecnologia refinada, nenhum portal mágico, apenas abrir um livro.
Você pode viver conflitos que nunca aconteceria na sua vida, porque não existe
tempo suficiente pra viver o tanto de aventuras que um personagem vive. O mesmo
valeria para o cinema e demais artes. Através da arte, imagens, palavras, sons
e movimentos constroem e carregam cultura de um tempo que não existe e que
passa a existir a partir do momento que se manifestam.
Aliás, a arte faz o que a internet só promete fazer. Proporciona acesso e compartilhamento de diferentes visões de mundo e cria realidades alternativas. Coisa que um fotógrafo, um pintor, um escritor, cantor, dançarino e etc. fazem no seu ofício presencial e material. A arte nos inspira a superar as devastações do dia a dia que nos desgastam e nos afasta de quem somos.
Moral das histórias
Como eu já falei bastante do primeiro filme, queria reservar um espaço para os outros dois e os impactos que deixaram em mim. As vezes não tem nada a vez com a mensagem que o filme pretende passar, mas reflete o meu estado de espírito quando o assisti. Sendo assim, x Under the open sky x deixou em mim uma mensagem de: viva sua vida enquanto você ainda tem o céu sob a cabeça, o privilégio de ter o céu aberto ao seu alcance, sem viver no passado sob o falso brilho de outrora, de uma vida que parecia mais fácil, porém só é fácil quando vista de longe e não volta, não cabe mais no agora (acho que conversa um pouco com o cenário pandêmico que vivemos e a espera pela volta do normal). x Ito x deixou em mim uma mensagem de: você é o que você faz, não o que fazem com você ou de você. Mas é preciso fazer algo, se mover em alguma direção. Normalmente essa direção vai de encontro com as suas raízes e com os traumas que essas raízes amarram.
O padrão
Todos os três filmes reúnem uma galera aparentemente aleatória, que fazem todo o sentido junta. Dependendo da lente que se vê, podem parecer filmes lentos e desinteressantes, não existe um mudo pra salvar, um inimigo pra combater, as vezes nem um problema a resolver. São filmes sobre vida que segue. O filme acaba e a vida segue, a vida daquelas pessoas vai seguir depois de tudo aquilo que você viu sobre elas. Não acabou ali, nem vai começar dali, nem chegou no seu ápice ali.
Acho que o fato de serem histórias sobre o cotidiano de pessoas, faz ele ser tão gostoso de assistir, quase nostálgico. Me desperta o mesmo sentimento que alguns filmes do Studio Ghibli, como Ocean Waves ou Whispers of the Heart. Eu gosto desse tipo de enredo. Deve ter um nome pra esse estilo de filme, tudo tem um nome pra categorizar e facilitar a identificação, gostaria de descobrir... Vai que isso é o chamado slice of life junto de coming of age e eu não to sabendo identificar.
Nota
*O evento foi organizado pela Japanese Foundation São Paulo, disponibilizou uma seleção de 24 filmes, incluindo documentário, com legenda em várias línguas. Você tinha um prazo de 48h para assistir o filme à medida que clicava no play. A plataforma contava com entrevista com os diretores, e as vezes com atores também, sobre os filmes, além de contar com algumas palestras sobre cinema japonês em diversas línguas, incluindo português, já que era um evento internacional. Pelo visto acontece todo ano, então espero poder participar melhor ano que vem, amém! No geral foi minha primeira vez em contato com um projeto desse e eu achei de uma organização impecável, muito provavelmente existem outros projetos online como esse do qual eu não tenho conhecimento e gostaria de ter, mas estou muito fascinada com esse.

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