Vezes em que o autismo me prejudica

Um dos critérios de diagnóstico do autismo e muitas outras condições é: o quanto prejudica tua qualidade de vida. Aqui eu trago algumas situações em que eu fico completamente debilitada pelo meu próprio cérebro.

1. Quando eu apago por mais de 8h seguidas no fim de semana (que é o único tempo livre que tenho para descansar, pois sou CLT), devido a exaustão e acordo desidratada, com fome e desorientada, sem forças para levantar da cama. Exaustão essa que pode ser causada por coisas mínimas como: exposição a luz ou som, interação social prolongada ou uma combinação desses fatores que enchem minha barrinha de tolerância diariamente. Um dia normal, cotidiano, já é suficiente para encher minha barrinha, mas alguns dias tem mais imprevistos que outros e eu tenho que lidar com níveis de estresse que variam. Ao final da semana, já estou no meu limite e meus dois dias livres são dedicados não ao lazer ou descanso, mas a crises. Dormir não me descansa, pois não é um sono reparador, meu corpo apaga por estar em colapso e usa isso como mecanismo de defesa. Nessas situações, preciso de suporte humano para me acordar, banhar, alimentar e hidratar. Esse suporte pode fazer essas coisas para mim totalmente ou parcialmente, a depender da situação.

2. Quando fico hiperfocada em algo por mais de 4h seguidas e perco a noção do tempo presente e também perco os sentidos, não escuto, não sinto fome, não sinto sede, não sinto vontade de ir ao banheiro, mesmo que todas essas coisas estejam presentes no meu corpo (o corpo está com fome, sede e vontade de ir ao banheiro), mas não tenho consciência disso até que eu esteja colapsando (com muita dor, tremendo ou delirando). Preciso que alguém me monitore em relação a isso, caso eu não consiga voltar para o plano presente sozinha. Por isso, autistas tem níveis de suporte. Meu suporte pode ser uma pessoa, um objeto, uma adaptação de horário ou local, varia de acordo com a situação. O ideal é que o suporte me permita ser o menos dependente possível de uma pessoa (ou seja, que a necessidade de uma pessoa seja terciário ou em último caso) no meu dia a dia.

3. Quando eu tenho que seguir uma rotina para tudo, não porque eu goste, ou concorde com a rotina, mas meu corpo e cérebro não lidam bem com mudanças bruscas, mudança de planos, mudança de clima, mudança de ritmo, mudança de ambiente... quando eu menos espero, estou chorando sem saber o motivo. Simplesmente porque houve mudanças que eu nem estava consciente e já foram suficiente para me afetar. Daqui que eu descubra o motivo de eu estar desregulada, o caos já foi instaurado, porque está para além de mim. Existe meu corpo, meu cérebro e eu. Nessa relação, o eu é sempre o último a saber 😀.

4. Quando eu perco pela vigésima vez alguma amizade ou relação, pelo fato de sempre desmarcar rolês por estar sobrecarregada de mais para interagir ou lidar com ambientes externos. E nem eu sei sugerir uma alternativa que me acomode, nem a amizade sabe me acomodar, nem eu tenho saco para lidar com minha própria indisposição, muito menos a amizade. Minhas relações tem que ser de baixa manutenção não por escolha, mas por necessidade. Baixas expectativas sempre.

Considerações finais

Sou capaz de fazer minhas coisas sem suporte nenhum? Sim, mas não por muito tempo, ou por muitos dias, ou por muitas semanas, ou por muitos meses. Em algum momento, eu colapso e passo dias sem levantar da cama, banhar, comer direito ou me hidratar, o que eventualmente vai me levar a um estado crítico de saúde. Cada vez que eu colapso, minha tolerância diminui. E um corpo que entra em constante situações de exaustão, estresse e colapso, uma hora para de funcionar 💀. Por isso, nossa expectativa de vida não passa dos 30 anos.

Por motivos que estão para além da minha vontade, me apresentar diariamente como uma pessoa normal, com expressões faciais, tom de voz agradável, movimentação corporal aceitável para o ambiente social - sem contar sobre tarefas que tenho que executar em ambiente de trabalho - me custa energia, pois meu cérebro não consegue fazer isso tudo automaticamente. Eu tenho que estar consciente de cada movimento meu e isso gera um esforço de autocontrole para: não gritar para o nada aleatoriamente apenas para liberar energia ou tensão, não me deitar no chão em público, não me sentar com as pernas na cadeira, não sair correndo do nada, não ficar pulando no mesmo lugar na frente das pessoas... São várias coisas que me ajudam e me regular e que não podem ser feitas em público 🤡, pois não sou uma criancinha autista que todo mundo sabe que faz "coisas estranhas" as vezes. Sou uma mulher adulta, aparentemente funcional, professora de criança, numa escola elitista. Choices, preciso ganhar um dinheiro que o INSS pagaria, então por enquanto estamos aqui.

Nota mental: preciso mudar de carreira/ arranjar um trabalho home office.

Mesmo sabendo que eu "não tenho que" me apresentar de forma aceitável para ninguém, no mundo das ideias, ainda to conquistando meu espaço para conseguir me apresentar da forma que quero. Quem sabe quando eu fizer meus 30 anos.

Em breve, escrevo um pouco em palavras simples sobre: o que é o autismo na fila do pão?

Um comentário:

  1. oi lana, nesse beda que irei fazer, eu iria focar em neurodivergência, mas como sou tagarela, não me satisfez fala somente de um assunto. mas por mais que não tenho autismo (apenas traços, oq nunca vai ser a mesma coisa) como de uma pessoa neurodivergente (tdah) para outra, sei como vc se sente. tenho dificuldades enormes, esqueço das coisas (algo que não queria admitir pra mim mesmo), depender de pessoas (sou muito dependente dos meus pais) e não conseguir manter de forma nenhuma relacionamentos (amizades, no meu caso) na minha vida.

    é realmente muito difícil, mas, desejo melhores dias para nós. <3

    abraços
    xoxoxo
    nicolle | kalopsia | aurora
    nicolledulce.wordpress.com
    experimental-aurora.blogspot.com

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